Sobre ser “plus size” – Ou sobre o amor-próprio

24 jan

Eu sempre fui magrela. Sou alta e compridona. Daquelas que na escola eram chamadas de saracura, pau de virar tripa, vara de cutucar estrela, ou qualquer adjetivo que o valha. Sempre tive complexo pelas minhas canelas finas e joelhos saltados. Foi assim até alguns poucos anos atrás. Depois dos 23 ou 24, mais ou menos, – por motivos que não vêm ao caso – eu dei uma boa engordada, até chegar num padrão que hoje se chama de gordinha – ou o equivalente a “plus size” no mundo da moda.

Por que estou escrevendo este texto? Bem, porque volta e meia me pego refletindo sobre a contradição entre o que o mundo pensa e o que eu penso. E porque às vezes eu gosto de compartilhar meu devaneios com quem quiser devanear junto comigo.

Hoje, sendo uma mulher “plus size“, eu deveria estar louca, deprimida, insegura, afinal, não é esse o padrão que nos é imposto, certo? Mas, eu devo sofrer de anorexia ao contrário, pois, por incrível que pareça, me olho no espelho e me acho gostosa. Hoje, aos 28 anos, vejo uma figura muito mais madura e sexy no meu reflexo do que quando eu era novinha e magrinha.

Na contramão desse mundo esbelto, ver minhas medidas aumentarem não me trouxe insatisfação. Pelo contrário. Fez com que também crescessem minha autoestima e autoconfiança. Pode parecer, aos olhos julgadores, conformismo e autocomplacência dizer isso, mas garanto que eu nunca me senti um mulherão quando pesava 50 quilos.

Adele: gordinha e diva.

Adele: gordinha e diva.

Obviamente, não estou dizendo que toda mulher deve simplesmente começar a engordar desleixadamente ou que as magras são feias. Estou dizendo apenas que, às vezes, a gente se deixa levar por pré-conceitos e acaba buscando um ideal que não funciona para nós. Cada pessoa é um ser único. Por isso se chama indivíduo. E cada um tem em si uma beleza própria, que deveria levar mais em conta seu “eu interior” (por mais redundante que isso soe) do que opiniões generalizadas e homogeneizantes como se estivéssemos sujeitos a um selo do InMetro que garantisse nossa “qualidade”.

Isso não só é um retrocesso como é cruel. E também não vou negar que eventualmente me pego imaginando maneiras de voltar a ser magricela, pra ver se “o mundo me aceita”. Mas, no minuto seguinte, eu percebo que isso é um absurdo, pois esses pensamentos visam unicamente a atender pressões externas – e quem tem que me aceitar sou eu. E eu adoro ter quadril, coxas grossas e peitos maiores do que quando eu podia usar uma roupa tamanho 40.

Também não digo que não gostaria de eliminar uma sobrinha aqui, outra ali. Acho que faz parte da natureza humana esse constante inconformismo com nossas “imperfeições”. Mas, ironicamente, hoje minha alimentação é muito mais saudável e meus exames clínicos, melhores do que quando eu era uma bela moça esguia aos 20 anos.

E a diferença também é que toda e qualquer mudança que eu busque no meu estilo de vida visa unicamente garantir minha saúde, porque, francamente, não consigo conceber fazer dietas mirabolantes e me matar em exercícios malucos apenas para satisfazer um padrão no qual nem eu mesma acredito.

Uma coisa eu digo, sem falsa modéstia nem hipocrisia: eu me acho bonita do jeito que sou. E tem muita mulher por aí, talvez até sofrendo com baixa autoestima, que também é linda e não precisa de metade desses sacrifícios que faz em nome de um visual estereotipado. Só sinto pena de quem não consegue enxergar a própria beleza sem as lentes da crueldade da mídia e do mundo da moda.

Talvez essa reflexão faça diferença pra você. Talvez não. Mas, o que eu quero dizer é: você pode ser bonita sendo gordinha. Você pode ser bonita sendo magrela. Você pode ser bonita sendo alta, baixinha, usando óculos ou aparelhos dentários. Você pode. Você é bonita. Do seu jeito. Com a sua beleza única. Não é a mídia quem tem que dizer qual deve ser a sua aparência. É você. Consigo mesma. Com a sua autenticidade e dentro do que o seu corpo permite. Eu nunca vou ser a Gisele Bündchen. Graças a Deus. Porque ela também nunca vai ser a Mayara Godoy.

Viva à diversidade. Viva ao amor próprio. Viva à liberdade de ser o que se é.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: